Por que carros blindados usados são mais baratos?

Ele é um SUV de luxo ou mesmo um sedã de alto valor, mas o que chama atenção é o preço bem abaixo da tabela. Anúncios com estas características são comuns em sites de classificados de venda pela internet, mas há um detalhe importante nesses casos, o termo “blindado”. Para muita gente que procura um carro usado de luxo e não tem pretensões extras quanto à segurança, acaba ficando decepcionado diante daquela oferta irresistível.

Mas, por que carros blindados são mais baratos? Um dos motivos é esse. A maioria das pessoas não quer arcar com os custos extras de manutenção de uma blindagem, que altera a estrutura do veículo e especialmente seu peso, tornando inviável para muita gente ter um carro desse tipo na garagem.

O desgaste acentuado dos conjuntos de suspensão e freios, que não foram projetados para o peso extra dos materiais de proteção, bem como o consumo mais elevado por conta do deslocamento extra de pessoas e carga, torna o carro blindado ideal apenas para quem precisa mesmo se proteger. A performance também é comprometida e o conforto, já que apenas a janela do condutor geralmente abre. Nesse caso, comprar um carro desse tipo se torna um bom negócio, mas que exige cuidados, entre eles o custo da delaminação (ruptura do revestimento de policarbonato dos vidros) e perda de transparência, que é bem cara para substituição.

Como existe a lei da oferta e da procura, se há baixa demanda por esse tipo de carro, a tendência é a de redução nos preços para facilitar sua aquisição. Porém, há mais coisas envolvidas. A cotação desse tipo de automóvel é complicada, pois o mercado não tem como definir o quanto foi gasto em cada blindagem e nem o valor que o veículo vale de fato com a tecnologia que foi empregada. E ele não é estática. Ou seja, ela não fica presa ao carro sem exigir manutenção.

Como poucos fazem a manutenção preventiva no sistema de blindagem do veículo, o mercado acaba entendendo que a maioria está “no estado” e sem qualquer garantia de que ainda continua eficiente. Ou seja, se você procura um carro blindado e não tem certeza de que ele está devidamente protegido, das duas uma: ou você desiste da compra ou exige um valor ainda menor para compensar uma futura revisão ou substituição de componentes. Isso tudo ajuda a empurrar o preço do blindado usado para baixo.

Quanto mais antigo, mais difícil fica para termos uma noção de preços. Com até 10 anos, ainda algumas empresas se arriscam a estabelecer valores, mas o certo é que não há uma cotação precisa. Por isso, existem enormes discrepâncias de preços no mercado. Assim, o mesmo carro sem blindagem e no mesmo estado acaba sendo oferecido no mercado de usados com preço maior, enquanto o similar blindado nas mesmas condições custa bem menos.

Desvalorização acentuada
A desvalorização acentuada chega a 50% em alguns casos, especialmente de carros importados, que geralmente perdem muito mais valor com o passar dos anos. A blindagem só acentua essa tendência, o que faz com que carros caros e blindados sejam vendidos por preços irresistíveis. O problema é que existem diferentes tipos de blindagem com custos variados e isso, assim como ocorre com os equipamentos extras ou opcionais, não entra na formação de preço de carro usado.

Então, mesmo que o nível de blindagem seja elevado e que sua proteção esteja em dia, pouco ou nada fará para alterar para cima do valor do carro em comparação com uma blindagem mais fraca e em condições inferiores em outro veículo similar. No mercado, se fala em vida útil limitada da blindagem, quando na verdade a degradação por causa do tempo só existe na parte dos vidros, que é a mais frágil do sistema. Isso também ajuda a empurrar ladeira abaixo os valores de blindados mais antigos.

Outra tendência é que aquisição de automóvel blindado zero km ao invés de usado na grande maioria dos casos. Isso permite ao cliente escolher o carro desejado e o nível de proteção que precisa, bem como fazer o orçamento de acordo com o que quer gastar. Para os usados, resta apenas uma desvalorização menos acentuada nos primeiros quatro anos de uso, pois depois disso acaba tendo como destino mofar nos pátios e salões de lojas multimarcas ou concessionárias.

Brasil, líder em blindagem
Todo aquele dinheiro gasto na hora da blindagem quando zero km, se perde em pouquíssimo tempo. E não é pouco dinheiro, pois em média uma blindagem de bom nível custa na casa de R$ 50 mil. Em alguns casos, isso representa 50% do valor do carro. Esse é o custo de se proteger no Brasil, que é o líder mundial na blindagem de automóveis, tanto que alguns fabricantes de veículos decidiram faze-lo por conta própria, achando nisso um novo filão no país.

Atualmente, o país conta com 400 empresas registradas no Exército – que é quem regulamenta esse mercado – mas as próprias empresas dizem ser 200 blindadoras. O que se sabe, também através do braço terrestre das forças armadas, é que o Brasil registrou a venda de 16 mil carros com proteção contra tiros em 2017, mais que o dobro do segundo colocado mundial, o México, que emplacou 7 mil no ano passado. Para 2018, a previsão é de alta de 25%, alcançando a marca de 20 mil carros blindados.

Realmente, trata-se de um recorde triste para o país, pois isso é reflexo da própria insegurança no Brasil. Se de um lado o cidadão perde, de outro surge uma indústria para ganhar com isso. No caso das montadoras, elas trabalham com parceiras certificadas pelo Exército, já vendendo o carro novo com a proteção em nível que o cliente apenas escolhe. BMW, Land Rover e Volkswagen, por exemplo, usam esse tipo de parceria. A Audi é a única que vende um blindado de fábrica, que é o Q5 importado do México. As demais, no entanto, não possuem empresas homologadas para esse serviço.

No Brasil, a blindagem de nível III-A – com proteção contra projeteis de calibres .44 e 9 mm – é quase padrão, sendo responsável por 95% do mercado. Esse nível é o máximo permitido para uso civil no Brasil, de acordo com o Exército. Porém, infelizmente não são raros os casos onde o fuzil é utilizado contra condutor e passageiros no país. Lá fora, as montadoras e empresas especializadas possuem níveis de proteção contra rifles, fuzis e metralhadoras, bem como bombas de diversos tipos.

Mas somente carros de luxo são blindados? Desde o começo dessa matéria, falamos de automóveis luxuosos com preços irresistíveis quando usados, mas a verdade é que mesmo carros comuns e até populares já estão sendo blindados no Brasil. Carros como Fiesta e Fit, por exemplo, possuem procura para blindagem, assim como picapes leves, como é o caso da Saveiro. Segundo as blindadoras, há um limite mínimo de potência para que o carro possa deslocar com agilidade o peso extra da blindagem, sendo no caso 115 cavalos.

Comprando um blindado usado
Para ter um carro blindado usado, o ideal é procurar um carro cuja empresa que realizou o serviço seja credenciada pelo Exército e renomada no setor, sendo descrita no Certificado de Blindagem do veículo. Verifique o interior para ver se não há sinais de entrada de água ou mofo, pois a umidade estraga a aramida usada na blindagem. Observe a montagem e o estado do acabamento, por causa da desmontagem do veículo e veja se o vidro elétrico funciona em velocidade compatível com um carro comum, lembrando que abrem apenas parcialmente (75%).

Teste todos os sistemas elétricos do veículo (especialmente o ar-condicionado) e observe alinhamento das peças da carroceria e se há deformidades aparentes na estrutura, o que indicaria fadiga. Vidros escuros, azuis ou espelhados não são películas, mas foram adicionados durante a blindagem e hoje são raros. Sua substituição é impossível por conta disso.

Observe a delaminação dos vidros, que podem apresentar bolhas de ar de no máximo 2 cm. Manchas brancas ou trincas nos vidros não possuem concerto. Faça um test drive e observe o comportamento do carro, que precisa ser neutro como em um carro comum, especialmente a suspensão. Se for pneumática, teste os niveladores. Se a dúvida for maior, leve em um profissional especializado nesse tipo de carro. Faça uma revisão da blindagem após a compra para ver se tudo está em ordem.

Fonte: NoticiasAutomotivas