Mercado automotivo e pandemia

Adaptação. A pandemia repercute em diferentes áreas do cotidiano, e na economia também tem impactos, com novos comportamentos até nos atos de consumo. O momento sugere reinvenção e no mercado automotivo, por exemplo, aumenta a necessidade de adoção de outras posturas. A importância da tecnologia, sempre presente nas atividades humanas, agora toma força de lei nos negócios especializados em veículos.

Sócio fundador da AutoMAIA Veículos, revenda de carros seminovos referência em Belo Horizonte, Flávio Maia lembra que, a partir de abril, quando já havia um período significativo de restrição das atividades na capital mineira, por conta do coronavírus, um verdadeiro caos se instaurou. Como aconteceu com grande parte do comércio, também as empresas com foco em automóveis se viram em dificuldade. "Muitas implantaram férias coletivas e até fecharam as portas. O tempo foi passando e a conta não fechava", diz.

Uma circunstância que demandou um posicionamento mais efetivo. O fortalecimento das plataformas virtuais se mostrou uma transição imprescindível. "Com a impossibilidade de abrir as lojas, foi preciso estabelecer um novo modelo de negócios. Cresceu a importância do digital, o relacionamento com os clientes pelas redes sociais, contatos via whatsapp, produção de fotos dos carros para envio", conta Flávio Maia. "Ninguém esperava que essa situação de pandemia seria tão demorada, mas depois a gravidade ficou evidente. É o que impulsionou a partida para o digital", complementa o empresário.

Novos termos surgiram, como o agora chamado test drive virtual. O vendedor aciona o cliente em chamada de vídeo, ou vice-versa, e mostra todos os detalhes do carro em oferta ao vivo, em contatos que podem durar até 40 minutos. No mesmo compasso, as redes sociais ficam mais robustas, com a integração de ferramentas como o whatsapp e o Instagram, e o investimento em showroom digital ganha peso. Uma reformulação no modo de atendimento aos clientes.

Na AutoMAIA, o whatsapp foi unificado para um mesmo canal corporativo, e dessa plataforma partem 40% de todos os negócios acordados na revenda. "O trabalho é aos poucos mais bem estruturado. A pandemia pediu novas maneiras de abordagem, e aí os apelos visuais são fundamentais. No nosso caso, fomos favorecidos porque temos um perfil robusto nas redes sociais e que está ainda mais fortalecido", salienta Flávio.

Na contramão, aumenta a ocorrência dos delitos digitais. Com o comércio em funcionamento restrito, ladrões apostam ainda mais nos crimes virtuais. Um dos mecanismos dos golpes, quando se trata de carros, se dá quando o contraventor, por exemplo, rouba um anúncio de um automóvel de uma loja séria, replica na internet, oferecendo o carro por um preço atrativo e, quando em contato com uma pessoa interessada, solicita o pagamento de um sinal para reservar o carro.

"Por achar um negócio irrecusável, no calor da emoção a vítima deposita a entrada e, quando vai à loja em busca do produto, fica sabendo que tal promoção não existia, que o anúncio não é da loja e que, portanto, é fraudulento. Quando procura o anunciante, percebe que o telefone nem existe mais, não consegue contato", alerta Flávio Maia.

Nesse ponto, há como se precaver, ensina Flávio. Prestar atenção para o código de área do telefone, pesquisar há quanto tempo a empresa existe, se tem website, endereço físico, o CNPJ, buscar referências na internet, assim como solicitar filmagens do carro, são algumas ferramentas para não cair em ciladas.

Outra questão é ter cuidado com anúncios de vendedores particulares. Flávio Maia recomenda dar preferência para aquisições em lojas e, ainda mais importante, procurar empresas credenciadas à ASSOVEMG (Associação dos Revendedores de Veículos de Minas Gerais). "A associação tem critérios rigorosos para admitir uma loja. Se tiver o selo da instituição, já é meio caminho andado. Sem contar a garantia oferecida nas revendas. Quando é uma pessoa física, o risco é muito maior. Nem mesmo com a garantia dos 90 dias é possível contar", orienta.

A oferta do laudo cautelar, uma espécie de carta de procedência do veículo, é outra ponderação sobre uma transação segura. Trata-se de um levantamento que avalia mais de 50 itens que caracterizam cada veículo, como o estado das peças, o motor, se o carro foi repintado, se foi batido, se tem itens originais de fábrica ou não, assim como a checagem de toda documentação, gravames, sobre registro de multas, entre muitas outras avaliações. Criminosos não disponibilizam o laudo. "São precauções essenciais, ainda mais porque se trata da aquisição de um bem importante. Na AutoMAIA o laudo cautelar é obrigatório. Assim podemos assinar a qualidade do que estamos vendendo", garante.

"O digital é bom, facilita e encurta caminhos, mas há que se ter atenção para não se tornar uma bomba", pondera Flávio Maia. "A fraude geralmente vem revestida de uma super oportunidade. Mas são ofertas absurdas. Desconfie sempre quando os valores pedidos estão muito abaixo do valor de mercado", orienta.

Antes da disseminação da COVID-19, era comum a decisão de algumas pessoas por se desfazer dos carros, preferir transportes compartilhados, como ônibus e metrô, contratados via aplicativos ou, para pequenas distâncias, trajetos a pé, como descreve Flávio Maia.

Mas agora, andar de carro se tornou até medida de segurança, o que influencia na retomada da demanda." Se a pessoa está em um veículo de aplicativo, por exemplo, não tem como saber quem entrou, quem tocou a maçaneta, se o motorista está infectado. Agora o carro funciona mesmo com uma barreira sanitária, e para proteção. Com o seu próprio veículo, é mais fácil saber quem já andou ali e se prevenir", pontua.

Com isso, Flávio vê sinais de recuperação no setor. Entre março e abril, o volume total de negócios na revenda caiu quase 80% sobre o cenário normal. Em agosto, com o retorno de algumas atividades, a recuperação foi de 90% na comparação com o índice aferido em janeiro, o que, no final das contas, trouxe o nível de queda de volta aos 10% de perda na receita. "O mercado começa a se refazer. As pessoas estão procurando o carro de novo", diz.

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