Mercado aquecido vira oportunidade para quem quer vender o carro

Procura por carros nos últimos meses surpreende fabricantes e lojistas e reduz impactos da pandemia no setor
Vendas de usados se recuperam, o que deverá reduzir os prejuízos do setor que ficou com as lojas fechadas por quase 5 meses em 2020

Passado o sufoco dos meses iniciais da pandemia do novo coronavírus, os lojistas de automóveis lidam atualmente com o aquecimento na procura por veículos, que já é mais alta nesta época do ano, e acabou ganhando um impulso adicional por conta das mudanças no hábito de circulação.
"Estamos vendendo uma média de 73 mil carros/dia. No mesmo período do ano passado, esse volume era de 60 mil carros/dia", comenta Ilídio Gonçalves dos Santos, presidente da Fenauto (Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores), organização que representa os lojistas multimarcas do  mercado brasileiro.

Uma pesquisa recente divulgada pela Globo Insights apontou que quatro em cada dez pessoas pretende comprar um carro nos próximos meses. Santos ressalta que essa tendência está movimentando inclusive a demanda por automóveis mais antigos.

“Por ver o carro como uma alternativa de transporte seguro, tem gente optando claramente por comprar um segundo ou até terceiro automóvel. Isso fez crescer a procura pelos modelos com mais de 12 anos de uso, que era bem menor do que é hoje”, completa Ilídio.

O presidente da Fenauto avalia que o mercado de usados deve fechar o ano com vendas de 10 a 12% menores que as do ano passado. “Mesmo com essa queda, trata-se de uma vitória levando em consideração que ficamos de quatro a cinco meses com lojas fechadas”.

Estoque em baixa, preços em alta
O CEO e fundador da Damato Marketing Automotivo, Almir Nogueira Júnior, destaca que passada a euforia inicial, o nível atual de procura por automóveis novos e usados já começa a gerar preocupação entre os lojistas, por conta da redução dos estoques.

“As locadoras estão no final dos seus estoques de usados e hoje já não oferecem mais os mesmos descontos para a compra de carros por concessionários. Diria que este é o melhor momento nos últimos anos para quem quer vender o carro. Tem revendedores que estão fazendo ações de compras de modelos seminovos, por conta dos baixos estoques”.
De acordo com um levantamento da startup Instacarro, esse cenário acabou impactando também nos preços dos seminovos e usados. O valor médio de venda de um Volkswagen Fox 1.0 com cerca de 90 mil quilômetros rodados, que era de 81% da Tabela Fipe – em agosto, subiu para 85%.

Ainda de acordo com a empresa, carros bem conservados e de alto giro com baixa quilometragem chegam a ser negociados por mais de 150% do valor da tabela Fipe, como aconteceu recentemente com um Toyota Corolla cuja venda foi intermediada pela Instacarro.

De acordo com as projeções mais recentes da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), a indústria automobilística brasileira deve fechar 2020 com uma produção total de 1,915 milhão de veículos, ou 35% abaixo de 2019.

 Enquanto isso, o volume de veículos novos comercializados deve encerrar o ano em 1,925 milhão de emplacamentos (retração de 31%). Essa projeção, divulgada em outubro pela entidade, apesar de parecer alarmante, aponta para um desempenho menos negativo da indústria do que o previsto inicialmente, quando se previa a queda de 40% ou mais do mercado.

Na avaliação Nogueira Júnior, da Damato Marketing Automotivo, as ferramentas de vendas digitais, como as lives automotivas, contribuíram positivamente para “salvar” os revendedores durante os meses iniciais da pandemia e geraram mudanças que ele considera definitivas no processo de compra de um veículo.

Esse cenário “menos pior” acabou surpreendendo também as montadoras, que ainda não se recuperaram do fechamento das fábricas no segundo trimestre do ano e voltaram a operar sob protocolos de distanciamento social.

Segundo a Anfavea, além dos fatores citados, os estoques de carros novos em baixa são explicados também pelo atual processo de reorganização da cadeia de fornecedores de componentes e matérias-primas e também pelas mudanças nas preferências do público no período.

Apesar de ter provocado adiamentos, a pandemia quase não afetou o ritmo de lançamento de novos modelos no mercado brasileiro. E isso acabou exigindo dos fabricantes mudanças no mix de produção de veículos e versões para atender a essas novas preferências do consumidor.

Fonte